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Cultura
Resenha
08-02-2019 | 17h30
A metamorfose de uma Estrela
‘Nasce uma estrela’ é um remake de um tradicional conto de fadas Hollywoodiano, que marca a grande estreia de Bradley Cooper como diretor e Lady Gaga como atriz

GUILHERME MELO

Na medida em que a trama de ‘Nasce uma Estrela’ (A Star is Born)vai se desenrolando, temos a sensação de que já assistimos a uma história parecida como a deste longa antes. A impressão ocorre devido ao fato de esta ser a quarta vez que Hollywood aborda a mesma temática. Em 1937, o filme foi estrelado por Janet Gaynor; em 1954, por Judy Garland; em 1977 foi a vez da dupla Barbra Streisand e KrisKristofferson. Em 2018, é a vez da rainha do pop Lady Gaga e do cantor Bradley Cooper encantar e emocionar o público com a história.

A essência da história de ambos os filmes é a mesma e se apoia no encontro entre um famoso cantor, que, atualmente, vivencia um declínio na sua carreira; e uma aspirante à cantora, cuja carreira começa a desabrochar, a partir do momento em que as trajetórias de ambos se cruzam. O poder dramático desta trama advém justamente do contraste entre a decadência de uma carreira, antes, próspera e a ascensão ao sucesso – tendo o surgimento do amor no meio disso tudo…

Quando Jackson Maine (Bradley Cooper) conhece Ally (Lady Gaga), você vê que a conexão entre ambos é instantânea. Podemos perceber que Jackson se enxerga na inocência e no frescor que Ally possui. Ele se alimenta disso e, ao cultivar o desejo de Ally de investir em seu talento, Jackson também investe em si mesmo. A derrocada dele vem e se acentua quando ele começa a perceber que, ao atingir o sucesso, Ally poderá perder aquela essência verdadeira que fez ele se apaixonar por ela. Uma essência que, talvez, ele tenha perdido no decorrer do caminho, ao também se afundar nos seus próprios conflitos internos com o vício em álcool e drogas.

O lado sombrio da fama 

A primeira cena do filme já dá o tom: ‘Nasce uma Estrela’ é uma forte crítica ao ambiente nocivo no qual artistas evoluem. Um ambiente marcado pelo consumo excessivo de álcool e outras drogas, que são o cotidiano de Jackson Maine e tantos outros. O filme tenta ao máximo mostrar que os aspectos que o público enxerga e os que o artista vivencia podem ser completamente diferentes: durante um show, por exemplo, mesmo que ambos sejam marcados pela agitação, uma delas é de alegria e animação, a outra de confusão e ansiedade. O contraste entre a vida pública e a vida privada de artistas é também perceptível no filme, principalmente através da edição e mixagem de som, com o contraste forte entre som alto e silêncio que representa a oposição entre a fama e a solidão, entre o poder e a fragilidade.

Relacionamentos e responsabilidade emocional 

As diversas fases do relacionamento entre Ally e Jack também são um dos pontos mais explorados no filme. Tanto a atuação de Bradley Cooper e Lady Gaga quanto a qualidade dos diálogos entre eles fazem com que a relação do casal seja muito verossímil. Uma relação de mentor e iniciante evolui para uma relação mais equilibrada de cônjuges, para depois a relação de poder se inverter. No entanto, é interessante perceber que se trata aqui de um casal que tem muito amor e carinho um pelo outro, que não possui nenhum problema de fidelidade, e ainda assim tem problemas. Muitas vezes nos são vendidos casais perfeitos ou que vivem relações violentas de abuso. Aqui temos um meio termo que corresponde muito melhor à realidade. O relacionamento não é uniforme, tem momentos muitos fofos, outros de desentendimento, o que torna mais fácil o público se identificar.

Algo inevitável, então, é torcermos pela felicidade do casal apesar de tudo, até porque existe sempre uma busca bilateral por uma solução, um esforço duplo para que ambos fiquem satisfeitos — mesmo que nem sempre dure. Nasce uma Estrela também trata de responsabilidade emocional, um assunto muito relevante em uma sociedade em que o egocentrismo é cada vez mais necessário para sobreviver. Mas para se relacionar de forma saudável, é necessário prestar atenção nas formas como nossas palavras e ações podem afetar os outros e tomar responsabilidade pelas consequências.

Por outro lado, é importante não passar a se culpar por tudo o que acontece de ruim com os outros e entender que nossa capacidade de ajudar quem enfrenta problemas, principalmente de saúde mental, é muitas vezes limitada. Nasce uma Estrela é bem-sucedido em apresentar personagens falhos, que cometem erros mas acabam por entender, por reflexão própria ou ajuda externa, o que é de sua responsabilidade e o que não é. O filme ainda busca mostrar que as emoções dos outros são uma grande responsabilidade e por isso o amor que sentimos pelo outro não basta sozinho: é preciso se amar antes de tudo para amar melhor o outro.


Vale a pena assistir a Nasce uma Estrela? 

Apesar de retratar uma história previsível, ‘Nasce uma Estrela’ prende a atenção e faz com que nos envolvemos com este relato. Bradley Cooper, que marca sua estreia como diretor, surpreende ao entregar um filme com sequências musicais vibrantes; ao mesmo tempo em que nos entrega um Jackson que é amoroso, melancólico, calejado, solitário e que tem uma percepção muito altiva do que ocorre ao seu redor. Lady Gaga, além de uma grande cantora, se revela uma atriz de talento – cuja virtuose absurda como cantora potencializa os números mais emocionantes de Nasce uma Estrela.

A princípio, essa era uma refilmagem totalmente desnecessária, mas, quando chegamos ao final dessa jornada, a sensação é de gratidão aos envolvidos por terem nos proporcionado um espetáculo de tamanha qualidade. O filme, com oito indicações ao Oscar, é um dos favoritos da academia nas categorias de ‘Melhor Filme’ e ‘Melhor Canção Original’, com a música ‘Shallow’ (Lady Gaga, Mark Ronson, Anthony Rossomando e Andrew Wyatt).

 

(62) 3095-8700