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Cultura
Resenha
11-01-2019 | 16h30
'You', nova série da Netflix que trabalha obsessão, traumas e muitos livros
Série estrelada pelo astro de Gossip Girl surpreende com uma trama imprevisível e um texto impecável

Guilherme Melo

No mundo do seriado estamos cercados de adaptações literárias que acabam sempre chegando ao mesmo impasse: nunca estão à altura do material original. Na maioria das vezes, esse impasse se dá pelo tempo curto dos filmes e séries ou pela imprecisão dos fatos. A narrativa em primeira pessoa da maioria dos livros que lotam as prateleiras de bestsellers também atrapalha roteiristas preguiçosos. ‘Crepúsculo’, ‘Cinquenta Tons de Cinza’ e até o ótimo ‘Todo Dia’, de David Levithan, agonizaram adaptações grotescas ao perderem aquilo que mais aproximava os leitores dos personagens: ouvir o que se passava pela cabeça deles.

‘You’, de Caroline Kepnes, é um livro narrado em primeira pessoa e ao ser adaptado para a televisão por Sera Gamble e Greg Berlanti (nome que tem um currículo impressionante de séries juvenis, que passa por ‘Dawson’sCreek’, ‘Everwood’, ‘Supergirl’ e ‘Riverdale’), conseguiu um feito notável: não perder a atmosfera característica de uma história de impressões internalizadas. É ele, o protagonista perigoso e apaixonado, que transmite os eventos, parciais, afetados profusamente pelas próprias ideias e neuroses que ele ameniza como bem entende. Histórias em primeira pessoa se contam com interpretações subjetivas e esse é o maior trunfo da série. As engrenagens que construímos para nos convencermos de que nossas atrocidades são justificáveis podem ser tão assustadoras quanto estranhamente plausíveis.

Lançada pelo canal Lifetime em 2018, ‘You’ passou despercebida e chegou a ser cancelada. A Netflix, que comprou os direitos de exibição, anunciou o interesse em continuar contando a história e somente agora é que a produção começou a ganhar notoriedade. Uma notoriedade bastante merecida, de fato. De alguma maneira, Berlanti e Gamble conseguiram fazer o simples (implantar a narração em off como forma de ampliar a compreensão dos personagens) funcionar perfeitamente a serviço da trama. A primeira temporada é esperta, intensa, inteligente e completamente imprevisível, tomada de tensão e descrições narrativas que surpreendem justamente por serem tão incomuns em adaptações literárias.

Cliffhanger 

A séria começa apresentando  Joe (Penn Badgley, de ‘Gossip Girl’), um gerente de livraria que tem uma forma peculiar de construir seus relacionamentos amorosos: ele escolhe alguém e investe todo seu tempo em se aproximar e cativar, usando de métodos agressivos e manipuladores para isso. Beck (Elizabeth Lail) entra na livraria de Joe por acaso e se torna, sem perceber, a vítima e o objeto de sua afeição. Poderia ser fácil para ele envolver e conquistar a moça, o problema é que Beck é uma mulher complexa, com amigos complexos e uma determinação pessoal forte demais para tornar-se simplesmente a peça de um jogo. Logo a trama ganha camadas ao notarmos que mesmo sendo um sociopata, Joe também é enganado por ela, o que faz com que a tarefa de controlar a vida da amada seja quase impossível.

Os núcleos paralelos são muito bem dispostos na trama, que tem poucos personagens e em 10 episódios não nos dá tempo para bocejar. Joe tem um passado confuso, foi tutelado pelo dono da livraria, um homem violento e frio. Para traçar uma boa analogia com o presente, Joe é vizinho do pequeno Paco (Luca Padovan), um menino também violentado pelo padrasto bêbado, que joga toda sua confiança naquela nova relação de paternalismo indireto. Já Beck tem na amiga Peach (Shay Mitchell), uma interlocução igualmente interessante. Rica e bem relacionada, Peach usa a constante vida bagunçada de Beck como forma de mantê-la aprisionada pela própria sensação de inferioridade. E é claro, sua obsessão pela amiga vai se chocar com a de Joe pela mesma.

O mais fascinante está na maneira como todas essas dinâmicas se encontram. Os roteiros não se acovardam e quando colocam seus personagens em posições de perigo, honram essa posição mesmo que isso signifique sacrificar. O elenco é formado por nomes conhecidos de séries populares como Gossip Girl, Pretty Little Liars e OnceUpon a Time (John Stamos, de FullerHouse, faz uma participação), mas todos esses atores foram preparados para nos convencerem de que o perigo é real e iminente. Badgley constrói um Joe que às vezes parece um psicopata e outras vezes somente um homem apaixonado; enquanto Elizabeth faz de Beck uma heroína e uma hipócrita na mesma medida. Ela é a vítima, sem dúvida nenhuma, mas ela não se vitimiza.

As nuances do texto são admiráveis. Joe comete desatinos como vigiar toda a movimentação telefônica de Beck, mas para qualquer um de seus exageros, há uma contextualização pessoal absurda que ele defende sob os termos do amor e da devoção. Muitas vezes essa distorção faz sentido, o que torna a história muito mais interessante de assistir. Essa porção Príncipe e Lobo Mal do protagonista é construída com muita sensatez, com grandes viradas, mas sem nunca ultrapassar os limites do folhetim barato. É incrível como a dramaturgia encontra maneiras de nos tirar do lugar comum, nunca reduzindo Joe a um vilão desalmado. O machismo que guia seus códigos morais é profuso, está em todos os átomos que o constituem, mas o texto é esperto demais ao mostrá-lo sempre correlacionando suas violências com afeto.

Quando chegamos ao final, o senso de imprevisibilidade não se deixa seduzir pela natural torcida que construímos por um ou pelo outro. You termina num seasonfinale poderoso, cheio de ótimas analogias e sínteses do que acontecera até ali, reforçando, sobretudo, o caráter realista da trama. Essa é uma série sem deux ex machinas que vem para salvar os oprimidos no último minuto. Ela é sádica em muitos momentos e no meio de toda essa paranoia, dá um jeito de ser romântica. É claro que seu cliffhanger está tomado de interesses comerciais, mas até para apostar no futuro é preciso coragem. E ela tem. No final das contas, ficamos tomados pelo sentimento de medo da aleatoriedade do destino, de sermos eleitos para entrarmos no lugar errado e na hora errada, ou de simplesmente estarmos investindo na aproximação com o grande inimigo. É sufocante, mas extremamente contemporâneo. Poderia ser eu, poderia ser você.


 

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