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Igor Montenegro: “A crise é algo bom, que corrige distorções e faz a economia evoluir”

Igor Montenegro vê o lado positivo da crise econômica no Brasil. Defende novas estratégias e estruturas dos setores público e privado.Agora, é preciso inovação e criatividade para ser competitivo.

Crises também são momentos de oportunidades. É o que explica o superintendente do Sebrae-Goiás (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), Igor Montenegro, ao Hoje de Frente com o Poder. Ele fala do ‘grande’ motor da economia, Movimento Compre do Pequeno Negócio, cuidados com dívidas e juros na hora de empreender, capacitação, commodities, competitividade e produtividade... Ao jornalista Murilo Santos revela ser radicalmente contrafinanciamento privado de campanhas eleitorais. Igor Montenegro diz também que o parlamentarismo já teria eliminado a crise política. 

Micro e pequenas empresas são mais atingidas em momentos de crise econômica?

Ninguém é uma ilha no momento de crise. Todos acabam sofrendo os efeitos. Entretanto a geração de empregos no Brasil foi sustentada nos últimos anos pelas micro e pequenas empresas. As estatísticas do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, mostram que médias e grandes empresas estão com déficit na geração de empregos há muitos meses seguidos...

Ao contrário de micro e pequenas...

Até agora, a geração de emprego só foi mantida em patamares normais por causa das micro e pequenas empresas, que hoje empregam cerca de 52% de toda a força de trabalho do Brasil. No total, 12 milhões de pequenos empresários no País. Eles fazem parte de uma força de trabalho que não tem carteira assinada, mas que estão trabalhando. 95% dos negócios no Brasil são de micro e pequenas empresas - o grande motor da economia brasileira.

Qual a principal orientação ao empreendedor em tempos de crise?

Estamos lançando o Movimento Compre do Pequeno Negócio, que vai tomar conta de todo o país. Vamos celebrar o Dia da Micro e Pequena Empresa, em5 de outubro, com um grande ato. A ação tem como objetivo valorizar pequenos negócios e fazer com que retomemos a vitalidade da economia. Quando compramos do ‘verdurão’, açougue ou loja de roupa próximo de nossas casas, os recursos gerados ficam naquele lugar e voltam a circular na economia local. Quando compramos de um grande negócio, o dinheiro gerado vai para uma conta em São Paulo ou no exterior. É importante fortalecer e revitalizar a economia local.

É hora de empreender ou aguardar o momento adequado?

Crises também são momentos de oportunidades. Alguns negócios que não vinham bem deixam de existir e abrem espaço para novos negócios. Sempre existem oportunidades na crise. O importante é tomar cuidado para não começar um negócio com muitas dívidas. Os juros no Brasil são muito altos. É importante o pequeno empresário procurar o Sebrae para consultoria. Com isso, ele começa um negócio com condição de pagar o investimento que vai fazer.

Dizem que na crise uns choram e outros fabricam lenços...

Também. Por isso, é importantíssimo que o empresário invista na capacitação. Empreender é um ato complexo e não envolve apenas o conhecimento técnico do negócio. OSebrae tem trabalhado ao longo de décadas com pequenos empresários brasileiros nesse sentido. Estamos disponíveis para que possam nos procurar. A capacitação pode ser realizada, por exemplo, na gestão de pessoas, na área financeira ou de vendas. O Sebrae está pronto para ajudar o pequeno empresário a ter sucesso.

O que fazer para empreender ou aumentar o negócio?

É sempre importante avaliar a necessidade do dinheiro, que nem sempre é o problema da empresa. Às vezes, o problema pode ser gestão, reduzir custos, melhorar vendas ou fazer o negócio gerar lucros evitando a necessidade de empréstimo. Se o negócio é novo é importante esgotar todas as alternativas de captação de recursos antes de pegar um empréstimo...

Qual alternativa?

O empreendedor pode buscar recurso na família, uma poupança, vendendo um carro ou com “investidores-anjo”. Já existem vários no Brasil que buscam oportunidade de investir em bons negócios. Se nada disso for possível, pegue um empréstimo. Com isso, é preciso buscar um especialista e o Sebrae tem a pessoa para orientar quais linhas com menores custos, carência e prazos compatíveis com a capacidade de pagamento do empresário. Os juros no Brasil são altos. Se o empresário evitar todos os juros possíveis, aumenta a possibilidade de sucesso.

Qual a lição do atual cenário econômico?

O Brasil passa por momento importante na sua história. A população está proativa quanto aos governos e empresas. Essa situação está gerando cidadãos mais conscientes. Não é a primeira nem a segunda crise econômica ou política pela qual o Brasil passa. Saímos mais fortes de crises. Precisamos repensar estratégias e estruturas de funcionamento do setor público e da iniciativa privada. Precisamos corrigir as coisas que estão erradas para sairmos mais fortes. O capitalismo tem essa virtude. É possível construir instituições mais fortes nas crises. No comunismo, as crises acabaram destruindo as estruturas de poder público e das pessoas que investiam em negócios. A crise é algo bom, que corrige distorções e faz com que a economia e a sociedade evoluam.

E vai durar muito tempo?

Já ouvi de tudo um pouco. A crise mundial eclodiu em 2008 nos Estados Unidos e na Europa. Muitos avaliaram que seria período curto, de dois a três anos. Porém alguns países estão começando a sair da crise agora e outros ainda vão demorar. Não foi uma crise curta. Não acredito que os fundamentos da nossa crise sejam tão graves como a dos países de primeiro mundo. Temos sistema financeiro saudável e condição econômica favorável dentro do País...

Qual o problema?

O problema é que estamos enfrentando junto com o desequilíbrio das contas do governo federal, que provocou esse grande desajuste, período de commodities com valores mais baixos. O Brasil navegou seu crescimento nos últimos 15 anos nas águas tranquilas e pacíficas do alto preço das commodities. Agora, é preciso inovação e criatividade para ser mais competitivo. A saída para o Brasil está na competitividade. Nosso trabalhador produz menos que o trabalhador de países desenvolvidos e nossas empresas são menoscompetitivas. A crise vem também nos ajudar nessa questão.

Goiás conseguiu se afastar da crise?

Goiás é um dos quatro estados brasileiros que conseguiu manter o ritmo da geração de postos de trabalho mesmo com a crise. Goiás também é um dos poucos que conseguiu manter o crescimento econômico apesar da queda do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil e de outras regiões. Nossa industrialização tem dado sustentação na produção primária, a agrícola. Conseguimos processar a matéria-prima produzida. Isso faz com que estruturemos cadeia econômica refinada, com mais sustentação de futuro. Ganhamos plataforma de comércio e serviços, onde se geram mais postos de trabalho. A junção de boa produção agrícola, indústria estruturada e boa cadeia de comércio e serviço faz com que tenhamos uma economia que avança...

Mas há entraves?

Também estamos enfrentando os problemas que o Brasil enfrenta, como queda na arrecadação em todos os níveis do governo; perda de vendas no comércio e serviços; redução de pedidos de compra na indústria e na área agrícola, apesar de continuarmos com boa produção; e queda nos preços. Além disso, Goiás é o terceiro produtor de minérios do Brasil e um dos maiores do mundo. As commodities de minérios estão enfrentando problemas de preços. Não se sabe se é momentâneo ou definitivo, mas terá influência nos próximos anos.

A diferença de produtividade do trabalhador brasileiro e de países de primeiro mundo é grande?

A produtividade do trabalhador brasileiro é menor que a do trabalhador americano, europeu ou japonês. É uma distância grande. Estatísticas mostram que a produtividade do americano chega a ser três vezes a do brasileiro e a do europeu chega a ser duas vezes maior que a nossa...

Por quê?

Capacitação. A média de anos de escola do americano e do europeu é maior. Há investimento no conhecimento técnico, melhorando o resultado do desempenho de um trabalhador em comparação com o outro. Outro fator que faz diferença são as ferramentas de automação utilizadas pelos trabalhadores em países mais desenvolvidos em relação ao Brasil. Nem sempre temos as mesmas ferramentas. De qualquer forma a base é o problema de raiz educacional que temos...

Tem que investir...

As ações que alguns governos têm realizado para melhorar o sistema educacional são muito importantes. O crescimento no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) que Goiás teve nos últimos anos é muito importante para dar sustentação ao nosso futuro. O futuro não está ligado apenas à matéria-prima, mas também à nossa capacidade de inovar a economia e sociedade para sermos competitivos internacionalmente.

Na última eleição o senhor pensou em concorrer à Câmara dos Deputados. Como enxerga a Casa hoje?

O Congresso Nacional já teve grandes figuras representativas, como Ulysses Guimarães, Ruy Barbosa e outros grandes legisladores. Percebemos que ainda existem alguns parlamentares capazes, experientes e inteligentes. Mas também existe grande traço de fisiologismo em alguns parlamentares. Precisamos vencer esse traço com uma grande reforma política. Essa reforma não chegou por proposta consistente do governo federal, nem por votações no Congresso Nacional...

A reforma vai acontecer?

Acredito que essa crise está mostrando ao Brasil que o brasileiro já foi questionado se queria presidencialismo ou parlamentarismo, mais de uma vez, e escolheu o presidencialismo. Essa crise tem mostrado que o parlamentarismo, talvez, fosse o melhor sistema de governo para o Brasil. No parlamentarismo, essa crise já teria sido solucionada institucionalmente sem traumas e repercussões.

A crise política...

Sim. Claro que quando a crise política é solucionada contribui para criar ambiente de melhoria da economia. A crise política acaba levando o país a ficar imóvel por muito tempo. A solução rápida da crise política promove solução rápida para a crise econômica.

A crise política tem maior influência na econômica do que ao contrário?

Sem dúvida. A crise que estamos vivendo é totalmente provocada pela crise política. Foi um desequilíbrio grande especialmente nas contas públicas federais que provocou a crise. O governo gastou mais do que podia durante muito tempo e esse desequilíbrio tem provocado problemas sistêmicos na economia. Um governo com alta responsabilidade fiscal não estaria vivendo o momento que o País vive hoje. Nós mesmos provocamos a crise. É preciso buscar um caminho para solução...

Qual?

Passa não só pela mudança do sistema de governo, mas também pela mudança de financiamento das campanhas. Tenho 20 anos de carreira na iniciativa privada e posso dizer que o financiamento privado não é bom para o país. No fundo, os próprios contribuintes vão financiar o sistema, seja diretamente, com contribuições de pessoas físicas, ou indiretamente, por meio das empresas. Quem paga a conta das empresas é o consumidor que compra os produtos. Aquilo acaba fazendo parte do preço do produto final. Por mais lícito e transparente que seja a contribuição será transferida para o preço. No fundo, quem paga uma campanha eleitoral somos nós. Seria melhor que isso fosse de forma transparente, por meio de sistema público... A reforma tem que passar pelo sistema de governo, financiamento e votação. (apoio: Karla Araujo) 

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