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Silvio Alves: "Hoje, Goiás não tem bandido com ‘nome’."

Filho de soldado, de família simples, vendia picolé na feira da Vila Brasília, o coronel Silvio Alves é o comandante geral número 39, em 157 anos de história da Polícia Militar: “Sou privilegiado por Deus”.

Comandante geral da PM, o coronel Silvio Alves revela com exclusividade ao Hoje de Frente com o Poder o lançamento de aplicativo para registrar boletim de ocorrência do aparelho celular. Na entrevista ele diz ainda que a saída para amenizar a falta de pelo menos 13 mil policiais militares é a tecnologia. Novo concurso, excedentes do anterior, Simve, legislação, desvios de conduta, estão entre outros temas. Ao jornalista Murilo Santos defende que PMs e PCs façam o ciclo completo da polícia: investigar, prender e levar direto ao juiz. Ele conta também sobre pretensões eleitorais. No vídeo, com a entrevista completa, no HojeTV(ohoje.com) tem ainda os Colégios Militares. 

Qual seria o efetivo ideal para a Polícia Militar?

Há um dado da Organização das Nações Unidas (ONU) que indica ser necessário um policial para 300 habitantes. Essa estatística nunca foi comprovada cientificamente. Tomando-a como base, precisávamos de 25 mil policiais militares. Hoje temos 12 mil. Acredito que esse efetivo a mais é substituído hoje pela tecnologia, como câmeras de vídeo e todo o centro de inteligência e controle criado pelo Governo de Goiás na Secretaria de Segurança Pública. Temos também um aplicativo de celular a ser lançado. Estamos usando esse apoio tecnológico em Goiás de forma positiva...

E é oideal?

Sim. Podemos comparar com a Polícia Federal. O Brasil tem grande extensão de fronteira em água e terra. O efetivo da Polícia Federal é de 15 mil pessoas para o Brasil todo. Mas eles trabalham muito. Vemos sempre a Polícia Federal deflagrando operações.

Com os serviços de inteligência...

Isso. A inteligência da Polícia Militar de Goiás, em conjunto com a inteligência da Polícia Civil e das Forças Armadas, faz um trabalho muito eficiente e eficaz. Estamos desbaratando quadrilhas com frequência. Goiás não é fronteira, mas somos o segundo no ranking em apreensão de drogas no Brasil por meio do trabalho do Comando de Operações de Divisas (COD). Criado em abril de 2012, já apreendeu cerca de 30 toneladas de drogas. Isso foi possível também pela parceria com a Polícia Federal.

Como funciona esse novo aplicativo?

Até policiais da França já vieram pegar esse knowhow conosco. O trabalho foi feito na Tecnologia da Informação da SSP, em conjunto com a Polícia Militar. Com o i9x, o cidadão poderá registrar ocorrência pelo próprio aparelho celular e também fazer chamadas de emergência. Usando o aplicativo será possível chamar a viatura que estiver mais próxima. Quando acionar pelo celular, a viatura que estiver mais próxima no raio de ação atende de imediato. Não será preciso ligar 190. Isso é pioneiro no Brasil. O nome será i9x, por enquanto. Talvez mude para um nome mais popular. Ainda não foi patenteado e a SSP lançará nesta semana.

Setores das próprias polícias de Goiás afirmam que falta estrutura para o serviço de inteligência. Como resolver?

Fui chefe da inteligência por mais de dois anos. Temos equipamentos, cursos de tecnologia e softwares avançados. Por exemplo, temos trabalhado em conjunto com o Ministério Público. Essas grandes operações do MP passam pela coordenação da PM. Evoluímos muito desde 2008, quando fui comandante da inteligência, para hoje. Somos vanguardistas e exemplo para outras polícias do Brasil.

Em abril foi anunciado concurso público para a PM. Sai ainda este ano?

Estamos aguardando. Isso fica a cargo da Secretaria de Gestão e Planejamento, que deve fazer o edital do concurso. Temos liberação do governo para chamar pessoas dentro do que gastávamos com o Serviço de Interesse Militar Voluntário Especial (Simve), em torno de R$ 3 milhões. O que era gasto por mês com o Simve será revertido naqueles policiais que ficaram excedentes no concurso de soldado realizado em 2012.

Eles serão chamados?

Parte deles. Serão chamados os melhores classificados e a quantidade que atende esse valor, conforme determinado em ação do Tribunal de Justiça...

Quantos?

Em torno de 700.

É possível pelo menos uma previsão sobre o concurso?

Além do concurso efetivo normal, o governador já autorizou mil vagas para serviços administrativos. Estaremos colocando esse pessoal no serviço administrativo, não fardado, mas exercendo função no atendimento 190 e no vídeo monitoramento, por exemplo.

Dispensados do Simve não poderiam ser aproveitados no serviço administrativo?

Sim. Estamos convocando. Quero aproveitar e agradecer o pessoal do Simve. Foram importantíssimos para a Segurança Pública. Convocaremos sim. Eles têm que passar por seleção e com certeza, se puderem estar conosco, ficaremos felizes.

É outro processo seletivo...

Sim.

Como será?

Será um processo para analisar se há antecedentes criminais. A seleção também será coordenada pela Segplan e pelo comando de ensino da corporação.

O que faz o senhor perder o sono no comando da PM?

É o contrário. Para muitos, ser comandantegeral é um encargo, um peso, uma dificuldade. Para mim é privilégio, uma honra. Sou filho de soldado. Venho de família simples e humilde. Cada dia que levanto sou mais motivado e feliz. Chegar ao comando da corporação, que tem 157 anos, é maravilhoso. Sou o comandante geral número 39. Um privilégio para poucos. Enquanto o governo e o secretário me derem oportunidade, vou honrá-la e fazê-la com a maior alegria.

Gostaria de resolver algum gargalo nesta gestão?

Sou presidente do Conselho Nacional dos Comandantes Geraisda PM e do Corpo de Bombeiros, eleito por unanimidade. Temos nossas políticas públicas. As Polícias Militares no Brasil são seculares. Perpassam mais de 100 anos e até hoje não temos lei de organização básica federal. O Ministério Público até 1988, antes da Constituição, também não tinha lei de organização básica. Muitas vezes os promotores eram mal remunerados e não eram respeitados. Hoje, vejo o MP como um quarto poder. Apenas no Brasil, no Quênia e em Guiné Bissau existem dois tipos de policiais. O cidadão liga no 190 e chama uma polícia, que manda viatura para fazer boletim de ocorrência que serve apenas para estatística ou arquivo. Então o cidadão procura outra repartição pública para dar continuidade. Esse modelo foi trazido para o Brasil por Portugal, que não faz mais isso há 50 anos...

Como mudar?

A população ganharia muito se a Polícia Civil pudesse abordar, fazer bloqueio e blitz e nós pudéssemos fazer o ciclo completo. Quase o mundo todo é assim. Quando a população procura serviço público de emergência e urgência, como o de Segurança Pública, não quer saber se a polícia está de terno ou fardado, quer ser bem atendida no seu reclame. Quer o pronto atendimento. É isso que tenho feito por meio do CNCG, falando na Câmara Federal e no Senado sobre a necessidade de evoluirmos. As Polícias Militares precisam evoluir. Somos instituições respeitadas, que as pessoas no momento de socorro sempre lembram de nós. Temos que evoluir para dar oportunidade à sociedade.

O senhor é a favor ou contra a unificação das polícias?

Sou contrário. Hoje somos em torno de 500 mil policiais militares no Brasil. Os policiais civis são cerca de 150 mil. Seriam 650 mil homens. Seria um exército muito grande e forte de policiais. Imagine que na unificação os policiais resolvam ter o direito de greve. Imagine se todas as polícias pararem de uma única vez. Seria o caos. Defendo policiais civis e militares que façam o ciclo completo de polícia, possam investigar, prender e levar direto ao juiz...

Mesmo a unificação em cada estado?

Em Goiás somos em torno de 11 mil policiais militares e 3,5 mil policiais civis. Para unificação é necessária emenda constitucional. Seria uma polícia muito grande, forte. Se tiver o direito de greve, o país pararia.

O trabalho do deputado estadual Major Araújo (PRP)“incomoda” o comando da PM?

Não incomoda. Acho que ele poderia ajudar a instituição. Muitas vezes só fazer a crítica pela crítica não leva a nada. A PM é mais forte que os membros, o comandante ou o deputado. É perene, tem 157 anos e sempre vai existir e ter função social. Muitas vezes o deputado, de forma deselegante, raivosa, não é respeitoso com o comando da corporação e com a instituição. Temos conseguido enormes conquistas neste governo. Temos o segundo melhor salário do País. Não nos falta equipamento, armamento, viaturas estruturas de trabalho...

Armamentos...

Recentemente compramos fuzis AR10 para o Grupo de Radiopatrulha Aérea (Graer). Armamento usado pelas forças do exército dos Estados Unidos. Hoje, Goiás não tem bandido que tem ‘nome’. Não tem lugar que a PM não entre com apenas dois homens em uma única viatura. A nossa polícia é altamente produtiva e proativa.

O deputado apresentou projeto da ‘BolsaArma’, onde o cidadão teria mil reais para comprar uma arma. O senhor é contra?

Completamente contra. Esse projeto é inconstitucional. Já morreria no nascedouro. Não é armando as pessoas que vamos diminuir a violência. Se a pessoa não for treinada e capacitada, morre com a arma na cintura. Temos que ter legislações fortes. É preciso acabar com a impunidade, o grande problema da segurança pública no Brasil. O marginal vai preso 26 vezes. O mesmo bandido é preso várias vezes e solto. O Código Penal, de 1940, é cheio de brechas.

Como trata desvios de conduta?

Com muito rigor. Fui corregedor da PM duas vezes. Não é uma maçã podre que vai estragar uma corporação de homens e mulheres honestos, que dedicam suas vidas para defender a vida de pessoas que nem conhecemos. Os únicos que fazem juramento de entregar suas vidas em defesa de outra pessoa que nem conhecem são profissionais da PM e das Forças Armadas. Os que aparecem para nos desonrar cortamos na carne.

Pretende disputar as eleições em 2016 ou 2018?

Só de meu nome ser lembrado para concorrer à Prefeitura de Aparecida de Goiânia já é orgulho muito grande. Tenho uma história com a cidade, povo e comunidade. Moro lá há 41 anos. Comecei minha carreira de tenente ali. Passei por todas as funções como comandante de batalhão e regional. Estou comandando a Polícia, como disse, com muita alegria...

Não tem intenção?

No momento, não.

O comandante geral da PM tem seus medos?

Claro que tem seus receios e medos. Atrás dessa farda tem um pai de família, um filho, um homem com virtudes, defeitos e falhas. Na verdade, somos comuns, não temos nada de especial.

Qual medo?

Sou muito temente a Deus. Tenho muita fé. Acredito muito em Deus. Minha história de vida é de um menino que engraxava sapatos, vendia picolé na feira da Vila Brasília. Hoje tenho quatro pós-graduações, sou professor universitário e cheguei ao alto posto da corporação. Sou privilegiado por Deus.

Qual o dia marcante como policial?

O dia mais triste como comandante e policial militar équando tenho que enterrar um PM e entregar a bandeira do Brasil para os familiares. É como se tivesse enterrando meu próprio filho...

Marca?

É dolorido. Naquele momento tento manter o emocional equilibrado, mas é muito difícil. Dá vontade de chorar, esbravejar, mas a gente tem que seguir em frente.

(apoio: Karla Araujo) 

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